quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O patinho Feio

 

p.feio

 

O que postarei aqui não é de minha autoria. Trata-se de uma parte do livro: Mulheres que correm com lobos. E eu me identifiquei muito. è uma analogia com a ghistória do patinho feio. No livro tem essa historia. Mas vou pula-la se não  vai ficar grande demais. Vamos lá:

A procura da nossa turma: A sensação da integração como
uma bênção


O patinho feio: a descoberta daquilo a que pertencemos
Às vezes a vida dá errado para a Mulher Selvagem desde o início. Muitas
mulheres tiveram pais que as observavam enquanto eram crianças e se perguntavam
perplexos como esse pequeno alienígena havia conseguido se infiltrar na família.
Outros pais estavam sempre olhando para os céus, ignorando a criança, tratando-a
mal ou dando-lhe aquele olhar enregelante.
Anime-se a mulher que passou por isso. Você já se vingou por ter sido
"impossível" de criar e uma eterna pedra no sapato deles, embora não por culpa sua.
Talvez até mesmo hoje você seja capaz de lhes inspirar um medo abjeto quando
aparece à sua porta. Até que não está mal em termos de vingança inocente.
Certifíque-se agora de perder menos tempo com aquilo que eles não lhe deram
e de dedicar mais tempo à procura das pessoas com quem você se sinta bem. Pode ser
que você não pertença absolutamente à sua família original. Você talvez combine com
eles em termos genéticos, mas quanto ao temperamento você pode pertencer a um
outro grupo. Ou quem sabe você não pertença à sua família apenas superficialmente
enquanto sua alma escapa, corre pela estrada afora e satisfaz sua gula mordiscando
petiscos espirituais em outras plagas?
Hans Christian Andersen1
escreveu dezenas de histórias sobre o arquétipo do
órfão. Ele foi um importante defensor da criança perdida e negligenciada, e dava
imenso apoio à idéia da procura e descoberta do nosso próprio grupo.
Sua história "O patinho feio", publicada pela primeira vez em 1845, trata do
arquétipo do ser incomum e desvalido, uma história perfeita e similar à da Mulher
Selvagem. Durante os dois últimos séculos, "O patinho feio" foi uma das poucas
histórias a incentivar sucessivas gerações de "gente diferente" a agüentar até
encontrar sua turma.
Trata-se de uma história básica em termos psicológicos e espirituais. Uma
história básica é aquela que contém uma verdade tão fundamental para o
desenvolvimento humano que, sem a incorporação desse fato, o avanço se torna
duvidoso e ninguém consegue prosperar sob o aspecto psicológico enquanto não
perceber essa verdade. Segue-se, portanto, uma  tradução de "O patinho feio", como
me foi contada originalmente no idioma magiar por falusias mesélök, narradores rústicos.

A questão do exílio é antiqüíssima. Muitos contos de fadas e mitos têm como
centro o tema do proscrito. Nesse tipo de relato, o personagem central é torturado
por acontecimentos alheios à sua influência, muitas vezes tendo como origem um
esquecimento fatal. Na história da Bela Adormecida, a décima terceira fada é
esquecida e não é convidada para o batizado o que resulta numa maldição lançada
contra a criança, que na realidade atinge a todos de um modo ou de outro. Por vezes,
o exílio é imposto por pura malvadeza, como quando a madrasta envia a enteada pelo
bosque escuro adentro em "Vasalisa, a sabida".
Em outros casos o exílio é conseqüência de um erro ingênuo. O deus grego
Hefaístos ficou ao lado da sua mãe, Hera, numa discussão com Zeus, seu marido.
Zeus enfureceu-se e atirou Hefaístos do alto do Monte Olimpo, aleijando-o e
banindo-o.
Às vezes o isolamento tem como origem algum pacto no qual se entra sem
plena compreensão do que se trata, como na história de um homem que concorda em
vagar como animal por um determinado número de anos a fim de ganhar uma
quantidade de ouro, e mais tarde descobre que entregou a alma ao diabo disfarçado.
"O patinho feio" tem muitas versões, todas contendo o mesmo núcleo de
significado; mas cada uma, cercada de diferentes enfeites e franjas que refletem o
meio cultural da história bem como o talento poético de cada narrador.
Os significados básicos que nos interessam são os seguintes: o patinho da
história simboliza a natureza selvagem, que, quando forçada a enfrentar
circunstâncias pouco propícias, luta instintivamente para continuar viva apesar de
tudo. A natureza selvagem sabe instintivamente agüentar e resistir, às vezes com
elegância, às vezes sem muito estilo, mas resistindo assim mesmo. Graças a Deus por
esse aspecto. Para a mulher selvagem, a continuidade é uma das suas maiores forças.
O outro aspecto importante da história é o de que, quando a vibração
específica da alma de um indivíduo, que tem tanto uma identidade instintiva quanto
uma espiritual, é cercada de aceitação e reconhecimento psíquico, a pessoa sente a
vida e a força como nunca sentiu antes. Descobrir com certeza qual é a sua verdadeira
família psíquica proporciona ao indivíduo a vitalidade e a sensação de pertencer a um
todo.

A rejeição à criança diferente
Na história, as diversas criaturas da comunidade examinam o patinho "feio" e
de um modo ou de outro o declaram inaceitável. Na realidade, ele não é feio. Só não
combina com os outros. É tão diferente que parece um feijão preto num balde de
ervilhas. A mãe pata a princípio tenta defender esse patinho que ela acredita
pertencer à sua prole. Afinal, porém, ela fica profundamente dividida em termos
emocionais e deixa de se importar com o filhote estranho.
Seus irmãos e outros membros da comunidade atacam-no, bicam-no e o
atormentam. Sua intenção é a de fazer com que ele fuja. E o patinho feio sente um
aperto no coração, por ser rejeitado por sua própria gente. Isso é terrível,
especialmente levando-se em consideração que ele na realidade não fez nada que
justificasse esse tratamento a não ser ter a aparência diferente e agir um pouco
diferente dos outros. Para dizer a verdade, temos nesse caso, antes mesmo que a
criatura chegue à adolescência, um patinho com um enorme complexo psicológico.
As meninas que demonstram ter uma forte natureza instintiva muitas vezes
passam por sofrimentos significativos no início da vida. Desde a época em que são
bebês, são mantida presas, domesticadas, e ouvem dizer que são inconveniente ou
teimosas. Suas naturezas selvagens revelam-se  bem cedo. Elas são curiosas, habilidosas e possuem excentricidades leve de vários tipos, características estas que,
se desenvolvidas, constituiriam a base para sua criatividade para o resto das suas vi
das. Considerando-se que a vida criativa é o alimento e a água para a alma, esse
desenvolvimento básico é de importância de dolorosamente crítica.
Geralmente, o isolamento precoce começa sem que seja por nenhuma culpa da
criança e é exacerbado pela incompreensão, pela crueldade da ignorância ou pela
perversidade proposital dos outros. Nesse caso, o self básico da psique é ferida desde
cedo. Quando isso acontece, a menina começa a acreditar que as imagens negativas
dela mesma, refletidas pela família e pela cultura em que vive, são não só totalmente
verdadeiras mas também totalmente isentas de preconceito, de influência da opinião
e de preferências pessoais. A menina começa a acreditar que ela é fraca, feia,
inaceitável, e que isso continuará a ser verdade não importa o esforço que ela faça
para reverter a situação.
A menina é rejeitada pelo mesmos motivos que vemos na história do patinho
feio. Em muitas culturas, existe uma expectativa, quando nasce uma filha, de que ela
é ou será um certo tipo de pessoa, que aja de um certo modo consagrado pelo tempo,
que siga um certo conjunto de valores que, se não forem idênticos aos da família, pelo
menos se baseiem nos valores da família, e que seja como for não abale os alicerces.
Essas expectativas têm definições muito estritas quando um dos pais, ou ambos, sofre
do desejo de ter um "anjo de filha", a criança "perfeita" e obediente.
Na fantasia dos pais, qualquer dos filhos que tenham será perfeito e refletirá
apenas o jeito de ser dos pais. Se a criança for rebelde, ela pode, infelizmente, ser alvo
de repetidas tentativas dos pais no sentido de realizar uma cirurgia psíquica, pois eles
estarão tentando remodelar a criança e, mais do que isso, alterar o que a alma da
criança exige dela mesma. Embora sua alma exija ver, a cultura ao seu redor exige a
cegueira. Embora sua alma deseje exprimir sua verdade, ela é forçada ao silêncio.
Nem a alma da criança, nem sua psique, podem aceitar essa situação. A
pressão no sentido de se "adequar", seja qual for a definição que a autoridade dê ao
padrão, pode perseguir a criança até que ela fuja para longe, para um mundo oculto
ou para vaguear muito tempo à procura de um lugar para se abrigar e viver em paz.
Quando a cultura define detalhadamente no que consiste o sucesso ou a
perfeição desejável sob qualquer aspecto — na aparência, na altura, na força, na
forma física, no poder aquisitivo, na economia, na masculinidade, na feminilidade, na
atitude de bom filho, no bom comportamento, na crença religiosa — existem ditames
correspondentes e tendência à avaliação na psique de todos os seus membros.
Portanto, as questões da mulher selvagem rejeitada geralmente são duplas: a íntima e e
pessoal, e a externa e cultural.
Cuidemos aqui das questões íntimas da pessoa rejeitada, pois quando
desenvolvemos uma força adequada — não uma força perfeita, mas uma força
moderada e prática — para sermos nós mesmas e para descobrir a que grupo
pertencemos, podemos então influenciar a comunidade exterior e a consciência
cultural com perícia. O que é uma força moderada? Ela é a que temos quando nossa
mãe interior não  está cem por cento confiante acerca do que fazer em seguida. Uma
confiança de setenta e cinco por cento já serve. Setenta e cinco por cento! é uma boa
proporção. Lembre-se, dizemos que uma planta está em flor, quer os botões estejam
meio abertos, abertos até três quartos, quer estejam totalmente abertos.


As más companhias
O patinho feio vai de um lado a outro à procura de um lugar onde possa
repousar. Apesar de não estar plenamente desenvolvido seu instinto para detectar
exatamente onde ir, o instinto de vaguear até encontrar o que ele precisa está em
perfeito funcionamento. No entanto, ocorre às vezes uma  espécie de patologia na
síndrome do patinho feio. Continuamos batendo nas portas erradas mesmo depois de
más experiências. É difícil imaginar como se poderia esperar que uma pessoa
soubesse quais portas são as certas se ela, para começar, nunca chegou a saber o que
é uma porta certa. No entanto, as portas erradas são aquelas que fazem com que
voltemos a nos sentir proscritos.
Essa reação ao isolamento é a do tipo "procura do amor em todos os lugares
errados". Quando a mulher se volta para um comportamento repetitivamente
compulsivo — reencenando um comportamento frustrante, que provoca a decadência
em vez de uma vitalidade permanente — com o objetivo de abrandar seu isolamento,
ela na realidade está causando mal ainda maior porque a ferida original não está
sendo tratada e a cada incursão ela ganha novas feridas.
Essa atitude se assemelha à de pingar algum remedinho no nariz quando se
tem um talho aberto no braço. Mulheres diferentes escolhem tipos diferentes de
"remédio errado". Algumas optam pelo que é obviamente inadequado, como as más
companhias, os excessos nos prazeres que são prejudiciais e destrutivos da alma, e
tudo que primeiro a incentiva e a coloca lá no alto para depois atirá-la no rés-dochão.
Existem diversas soluções para essas más escolhas. Se  a mulher conseguisse
parar para examinar seu próprio coração, ela veria nele uma necessidade de que suas
habilidades, seus dons e suas limitações fossem respeitosamente reconhecidos e
aceitos. Portanto, para começar a cura, pare de se iludir com a idéia de que um
pequeno paliativo irá consertar uma perna quebrada. Seja franco frente às suas
feridas, e assim terá uma imagem correta do remédio necessário. Não jogue no vazio
o que for mais fácil ou estiver mais disponível. Faça questão do medicamento
adequado. Você o reconhecerá porque ele irá fortalecer sua vida, em vez de
enfraquecê-la.

A aparência indevida
Como o patinho feio, o intruso aprende a evitar situações em que possa agir
certo mas mesmo assim dar a impressão errada. O patinho, por exemplo, sabe nadar
bem, mas não tem a aparência devida. Por outro lado, a mulher pode ter a aparência
perfeita e não conseguir agir corretamente. Existem muitos ditados sobre pessoas que
não conseguem (e que no fundo não querem) esconder o que são, desde um muito
conhecido no leste do Texas "você pode vesti-las com esmero, mas não pode sair com
elas" até um espanhol "ela era uma mulher com uma plumagem negra por baixo da
saia"."
Na história, o patinho começa agir como um  dumm-ling,
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um pateta, aquele
que não consegue fazer nada certo... ele joga poeira na manteiga e cai no barril de
farinha, mas não antes de mergulhar primeiro no latão de leite. Todas nós já
passamos por isso. Não conseguimos fazer nada certo. Tentamos melhorar. Em vez
disso, pioramos. Não era para o patinho ter entrado naquela casa. Mas isso acontece
quando se está desesperado. Vai-se ao lugar errado em busca da coisa errada. Como
dizia uma querida amigajá falecida não se pode tirar leite na casa do carneiro. Embora seja útil abrir canais até mesmo para aqueles grupos aos quais não
pertencemos e seja importante tentar ser gentil, é também imperioso não nos
esforçarmos demais, não acreditar demais que se agirmos corretamente, se
conseguirmos conter todos os impulsos e contrações da criatura selvagem,
poderemos realmente passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas.
É esse tipo de atitude, aquele tipo de desejo do ego de integrar-se a todo custo, que
destrói o vínculo com a Mulher Selvagem na psique. E então, em vez de uma mulher
vital, temos uma mulher simpática, a quem foram arrancadas as garras. Temos,
então, uma mulher bem-comportada, com boas intenções, nervosa, ofegante no
anseio de ser boa. Não, é melhor, mais elegante e muito mais profundo ser o que
somos e como somos, deixando que os outros também o sejam.

Sentimentos congelados, criatividade congelada
As mulheres lidam com o isolamento de outras formas. Como o patinho que
fica preso no gelo do lago, elas se congelam. O congelamento é a pior atitude que uma
pessoa pode tomar. A frieza é o beijo da morte para a criatividade, para os
relacionamentos, para a própria vida. Algumas mulheres agem como se conseguir ser
fria fosse um grande feito. Não é. É um ato de ira defensiva.
Na psicologia arquetípica, estar frio representa  não ter sentimentos. Há
histórias da criança congelada, da criança que não conseguia sentir, dos corpos
presos no gelo, durante um período em que nada podia se mexer, nada podia se
transformar, nada podia nascer. Um ser humano congelado significa que ele está
propositalmente sem sentimentos, em especial para consigo mesmo, mas também e
às vezes ainda mais para com os outros. Embora esse seja um mecanismo de
autoproteção, ele prejudica a psique-alma, porque a alma não reage ao gelo, mas ao
calor. Uma atitude  gélida apagará o fogo criativo da mulher. Ela inibirá a função
criativa.
É esse um problema grave, mas a história nos dá uma idéia. O gelo precisa ser
quebrado, e a alma, retirada do congelamento.
Quando os escritores, por exemplo, se sentem secos, áridos, sem vida, eles
sabem que o jeito para voltar à fertilidade reside em escrever. No entanto, se eles
estiverem presos no gelo, não conseguirão escrever. Há pintores que estão ansiosos
por pintar, mas dizem a si mesmos, "larga disso. Seus quadros são estranhos e feios".
Existem muitos artistas que ainda não firmaram sua posição e outros que são
veteranos de guerra no desenvolvimento da sua vida criativa, e mesmo assim cada vez
que eles pegam da pena, do pincel, das fitas, do roteiro, eles ouvem, "você só causa
problemas. Seu trabalho é marginal ou totalmente inaceitável porque você mesmo é
marginal e inaceitável."
Portanto, qual é a solução? Aja como o patinho. Siga em frente, supere tudo
com a luta. Apanhe logo a caneta, comece a escrever e pare de resmungar. Escreva.
Pegue o pincel e, para variar, seja má consigo mesma: pinte. Bailarina, vista sua
malha, amarre fitas no cabelo, na cintura ou nos tornozelos e diga ao corpo que se
mexa. Dance. Atriz, dramaturga, poeta, musicista ou qualquer outra. Em geral, pare
de falar. Não pronuncie mais uma palavra sequer, a não ser que você seja cantora.
Tranque-se num quarto com teto ou numa clareira sob os céus. Exerça sua arte. Sabese que o que está em movimento não se congela. Por isso, mexa-se. Vá em frente.

O estranho que passava
Embora na história o lavrador que leva o pato para casa pareça ser um recurso
literário para promover a história, em vez de um  leitmotiv arquetípico sobre o exílio,
creio ser valiosa uma reflexão sobre esse ponto. A pessoa que talvez pudesse nos tirar
do gelo, que talvez até mesmo nos libertasse em termos psíquicos da nossa
insensibilidade, não vai necessariamente ser aquela a cujo grupo pertencemos. Pode
ocorrer, como na história, mais um daqueles acontecimentos mágicos porém
efêmeros que surgem quando menos esperamos, um ato de gentileza de um estranho
que passava.
É mais um exemplo de alimentação da psique que ocorre quando estamos
numa situação-limite que não podemos mais suportar. É nessa hora que algum
sustento aparece do nada para  nos ajudar e depois desaparece noite adentro,
deixando-nos perplexas. Teria sido uma pessoa ou um espírito. Talvez tenha sido um
repentino acesso de sorte que traz à nossa porte algo muito necessário. Poderia ser
algo tão simples quanto uma trégua, um alívio na pressão, um curto período de
repouso.
Não estamos falando agora de contos de fadas, mas, sim, da vida real.
Qualquer que seja, é um tempo em que o espírito, de um modo ou de outro, nos
sustenta, nos puxa do fundo, nos mostra a passagem secreta, o esconderijo, o meio de
escapar. E essa chegada quando estamos por baixo e nos sentimos numa tempestade
sombria ou numa calmaria sinistra é o que nos empurra pelo canal que leva ao
próximo passo, à próxima fase no aprendizado de ganhar força no isolamento.

O isolamento como dádiva
Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez
você tenha muita sorte. É verdade que você pode ser um exilado de alguma espécie,
mas sua alma está abrigada. Ocorre um estranho fenômeno quando a pessoa tenta se
adequar e não consegue. Muito embora a criatura diferente seja rejeitada, ela ao
mesmo tempo é empurrada para os braços dos seus verdadeiros companheiros
psíquicos, quer se trate de um linha de estudo, de uma forma de arte, quer de um
grupo de pessoas. É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida
por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. Nunca
é errado ir à procura do que necessitamos. Nunca mesmo.
Há algo de útil em toda essa torção e tensão. Algo no patinho está sendo
temperado, está sendo reforçado por esse isolamento. Embora essa situação não seja
algo que se deseje a ninguém por nenhum motivo, seu efeito é semelhante ao da
produção de diamantes pela pressão aplicada ao carbono puro — ela acaba  levando a
uma profunda amplidão e clareza na psique.
Existe um aspecto da alquimia no qual a substância bruta do chumbo é
golpeada e martelada. Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser
divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas  do isolamento são
inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações,
proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de
observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas "aceitas".
Apesar de ter seus aspectos negativos, a psique selvagem consegue resistir ao
isolamento. Ele faz com que tenhamos um anseio ainda maior no sentido de liberar
nossa própria natureza verdadeira, e provoca em nós um desejo intenso por uma
cultura que combine com essa natureza. Só esse anseio, esse desejo já faz a pessoa
prosseguir. Ele faz com que a mulher continue a procurar. E, se não consegue encontrar a cultura que a estimule, geralmente ela resolve criar, ela mesma, essa
cultura. Isso é bom, pois, se ela a criar, outras que vinham procurando há muito
tempo chegarão misteriosamente um dia, proclamando com entusiasmo o fato de
estarem procurando por ela o tempo todo.

Os gatos desgrenhados e as galinhas vesgas do mundo
O gato desgrenhado e a galinha vesga  consideram as aspirações do patinho
estúpidas e sem sentido. Isso dá exatamente a perspectiva correta quanto à
suscetibilidade e aos valores daqueles que criticam quem não é igual a eles. Quem
esperaria que um gato gostasse da água? Quem iria pensar numa galinha nadando? É
claro que ninguém. No entanto, com enorme freqüência, do ponto de vista do
proscrito, quando as pessoas não são parecidas, é o proscrito que é inferior, não o
outro.
Bem, com a atitude de não querer tornar ninguém inferior a outra pessoa, ou
não mais do que for preciso, digamos que nesse ponto o patinho passa pela mesma
experiência pela qual passaram milhares de mulheres " exiladas"  — aquela de uma
incompatibilidade básica com pessoas diferentes, que não é culpa de ninguém, apesar
de que a maioria das mulheres, num excesso de amabilidade, assumam o fato como
se fosse sua culpa exclusiva.
Quando isso acontece, vemos mulheres que estão sempre dispostas a pedir
desculpas pelo espaço que ocupam. Vemos mulheres com medo de dizer
simplesmente, "Não, obrigada", e ir embora. Vemos mulheres dando ouvidos a
alguém que lhes repete insistentemente que elas são teimosas, sem compreender que
os gatos não nadam e que as galinhas não mergulham.
Devo admitir que às vezes considero útil no meu trabalho clínico delinear as
diversas tipologias da personalidade como gatos, galinhas, patos, cisnes e assim por
diante. Se a situação permitisse, eu poderia pedir a uma cliente que imaginasse por
um instante ser um cisne que não sabe quem é. Imagine-se, também, por um instante
que ela tenha sido criada ou esteja atualmente cercada por patos.
Não há nada de errado com os patos, afianço às minhas clientes, ou sequer
com os cisnes. Mas patos são patos, e cisnes são cisnes. Às vezes, para transmitir bem
a mensagem, passo para outras imagens do reino animal. Gosto de usar
camundongos. E se você fosse criada pelo povo camundongo? E s você fosse,
digamos, um cisne? Os cisnes em geral detestam os alimentos que os camundongos
comem e vice-versa. Cada um deles acha que o outro tem um cheiro esquisito. Eles
não têm interesse em passar tempo juntos, e, se o fizessem, estariam constantemente
perseguindo uns aos outros.
E o que dizer se você, sendo um cisne, teve de fingir ser um camundongo? E se
você teve de fingir ser cinzento, peludo e diminuto? E se lhe faltava um rabo longo e
sinuoso para ficar em exibição no dia de andar com o rabo para cima?E se, onde quer
que você fosse, você tentasse andar comei um camundongo, mas acabasse gingando?
E se você tentasse falar como um camundongo, mas a cada vez que tentasse saísse um
grasnido? Você não se sentiria a criatura mais infeliz do mundo?
A resposta é um inequívoco sim. Então, por que, se tudo isso é tão verdadeiro,
por que as mulheres não param de tentar se curvar e se dobrar para assumir formas
que não são suas? Devo dizer, com base em anos de observação clínica do problema,
que na maioria das vezes isso não decorre de um masoquismo enraizado ou de uma
dedicação perversa à autodestruição ou qualquer atitude dessa natureza. Com
enorme freqüência, isso ocorre porque a mulher não sabe o que fazer. Ela foi criada
sem mãe.
Há um ditado que diz  tu puedes saber muchas cosas, é possível saber acerca
das coisas, mas não se trata do mesmo que sentido, que deter o sentido. Já o patinho
parece saber "das coisas", mas ele não tem nenhum bom senso. Ele é sem mãe ou
seja, não foi instruído nos níveis mais elementares. Lembrem-se, é a mãe que ensina
ao expandir o talento ou instinto inato à prole. As mães do reino animal que  ensinam
seus filhotes a caçar não estão exatamente os ensinando "a caçar" pois isso já está nas
suas entranhas. Elas os ensinam a se precaver disso e daquilo, a prestar atenção às
coisas. Elas ensinam tudo que os filhotes desconheciam até que ela mostrasse,
ativando, assim, novos conhecimentos e sabedoria inata.
O mesmo ocorre com a mulher exilada. Se ela for um patinho feio, se ela não
tiver mãe, seus instintos não estarão aguçados. Em vez disso, ela aprende pelo
método de ensaio e erro. Geralmente muitas tentativas; erros inúmeros. Existe
esperança, porém, pois a criatura rejeitada nunca desiste. Ela persiste até encontrar
seu guia, até farejar a pista, o rastro, até encontrar seu chão.
Os lobos nunca são mais engraçados do que quando perderam a pista e fazem
tudo para recuperá-la. Eles saltam no ar, correm em círculos, escavam o chão com o
focinho, arranham o chão, correm adiante, voltam e ficam parados como estátuas: A
impressão é a de que enlouqueceram. Mas o que eles estão realmente fazendo é
recolhendo todos os indícios que podem encontrar. Estão captando esses indícios
com mordidas no ar. Estão enchendo os pulmões com os cheiros do nível do chão e
do nível das espáduas. Eles provam o ar para ver quem passou por ali recentemente,
com as orelhas girando  como antenas parabólicas, captando transmissões de muito
longe. Uma vez que eles tenham todos esses indícios em ordem, eles sabem como
prosseguir.
Embora a mulher possa parecer desmiolada, quando perdeu o contato com a
vida que mais valoriza, e esteja correndo de um lado para o outro tentando
reconquistá-la, na maioria das vezes ela está recolhendo informações, provando um
pouco disso aqui, agarrando com uma patada um pouco daquilo lá. O máximo que se
pode fazer seria explicar sucintamente o que ela está fazendo e deixá-la em paz.
Assim que ela processar todas as informações das pistas recolhidas, ela voltará a se
movimentar de modo deliberado. E então o desejo de pertencer ao clube do gato
desgrenhado e da galinha vesga acabará desaparecendo totalmente.

A lembrança e a persistência não importa o que aconteça
Todas nós temos um anseio que sentimos pela nossa própria turma, nossa
turma selvagem. Vocês devem se lembrar de que o patinho fugiu depois de ser
impiedosamente torturado. Em seguida, teve uma altercação com um bando de
gansos e quase foi morto pelos caçadores. Foi expulso de um quintal e da casa de um
lavrador e, finalmente, exausto, caiu tremendo às margens do lago. Não há mulher
que não conheça essa sensação. E no entanto, é exatamente esse anseio que nos leva a
insistir, a continuar, a prosseguir com esperança.
É essa a promessa da psique selvagem para todos nós. Mesmo que tenhamos
apenas ouvido falar de um maravilhoso mundo selvagem ao qual um dia
pertencemos, apenas vislumbrado esse mundo ou sonhado com ele, mesmo que até
agora nós ainda não o tenhamos tocado ou apenas o tenhamos tocado
momentaneamente, mesmo que nós não nos identifiquemos como parte dele, a
recordação desse mundo é um farol que nos guia para o lugar ao qual pertencemos,
pelo resto de nossas vidas. No patinho feio, um sábio anseio surge quando ele vê os
cisnes alçando vôo pêlos céus, e a partir desse único acontecimento sua lembrança
daquela visão lhe dá sustento. 

dio. Uma aranha que tecia uma teia na sua varanda chamou sua atenção. Não
saberemos nunca exatamente o que na atividade do pequeno inseto foi capaz de
quebrar o gelo que circundava sua alma para que ela pudesse se libertar e voltar a
crescer.  No entanto, estou convencida, tanto como psicanalista quanto como
cantadora, que muitas vezes são as coisas da natureza que têm maior capacidade de
cura, especialmente aquelas muito simples. Os remédios da natureza são poderosos e
diretos: uma joaninha na  casca verde de um melão, um tordo com um pedaço de
barbante, uma planta do mato em flor, uma estrela cadente, até mesmo um arco-íris
num caco de vidro na rua, qualquer um deles pode ser o remédio adequado. A
persistência é estranha: ela exige uma energia tremenda e pode se abastecer por um
mês com cinco minutos de contemplação de águas calmas.
É interessante salientar que, entre os lobos, não importa o quanto esteja
doente, não importa o quanto esteja acuada, o quanto esteja só ou enfraquecida, a
loba persiste. Ela corre mesmo com a perna quebrada. Ela se aproxima dos outros à
pró- a cura da proteção da matilha. Ela se esforça ao máximo para superar na espera,
na astúcia, na velocidade ou na duração da vida aquilo que a esteja atormentando.
Ela dedicará todas as suas forças a respirar bem. Ela se arrastará, se necessário, igual 
ao patinho, de um lugar para o outro até encontrar o lugar certo, um lugar benéfico,
em que possa se recuperar.
A principal característica da natureza selvagem é a persistência. A
perseverança. Isso não é algo que se faça. É algo que se é, em termos naturais e
inatos. Quando não temos condição de vicejar, seguimos adiante até podermos voltar
a vicejar. Seja o nosso isolamento originado de um afastamento da nossa vida
criativa, seja uma cultura ou uma religião que nos rejeitou, seja um exílio da família,
um banimento de um grupo, seja a imposição de sanções a nossos movimentos,
pensamentos e sentimentos, a vida selvagem profunda continua, e nós persistimos. A
natureza selvagem não é natural de nenhum grupo étnico específico. Ela é a natureza
essencial das mulheres do Daomé, dos Camarões e da Nova Guiné. Ela está nas
mulheres da Letônia, dos Países Baixos, de Serra Leoa. Ela está no cerne das
mulheres da Guatemala, do Haiti, da Polinésia.  Digam o nome de um país. De uma
raça. De uma religião. De uma tribo. Digam o nome de uma cidade, de uma aldeia, de
um solitário posto fronteiriço. Todas as mulheres têm isso em comum: a Mulher
Selvagem, a alma selvagem. Todas elas continuam a tatear em busca do selvagem e a
segui-lo.
Por isso, se precisarem, as mulheres pintarão céus azuis nas paredes da prisão.
Se a meada se queimou, elas fiarão mais. Se a colheita estiver destruída, elas farão
outra semeadura imediatamente. As mulheres desenharão portas onde não houver
nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas
vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e
triunfam.
O patinho é levado a arriscar a vida por um fio. Ele já se sentiu só, frio,
congelado, acuado, perseguido. Já atiraram nele, já desistiram dele. Ele já se sentiu
desnutrido, longe, fora de todos os limites, no limiar entre a vida e a morte, e sem
saber o que iria acontecer depois. Nessa hora vem a parte mais importante da
história: chega a primavera, começa a vida nova, uma reviravolta, uma nova
oportunidade de tentar. O mais importante é esperar, agüentar esperando pela nossa
vida criativa, pela nossa solidão, pelo nosso tempo de ser e de fazer, Pela nossa
própria vida. Esperemos, pois a promessa da natureza selvagem é a seguinte: Depois do inverno sempre vem a primavera.

O amor pela alma
Aguarde. Confie. Faça sua parte. Você descobrirá seu próprio caminho. No
final da história, os cisnes reconhecem o patinho como um dos seus antes dele
mesmo. Isso é bem típico das mulheres exiladas. Depois de tanto sofrer e vaguear,
elas conseguem atravessar por acaso a fronteira com seu próprio território e muitas
vezes não percebem por um certo tempo que as expressões das pessoas deixaram de
ser depreciativas e passaram a ser neutras com maior freqüência, quando não sejam
de admiração e de aprovação.                         
Seria de se pensar que, já que estão agora no seu próprio chão psíquico, elas
estariam delirantemente felizes. Mas, não. Pelo menos por algum tempo, sentem uma
terrível desconfiança. Será que essas pessoas realmente me consideram? Será que
aqui eu estou em segurança? Será que não vão me espantar daqui? Será que agora
vou poder dormir com os dois olhos fechados? Será que está certo agir como... um
cisne? Com o tempo, essas suspeitas são abandonadas, e começa o próximo estágio
da volta ao próprio eu: a aceitação da nossa própria, beleza singular, ou seja, da alma
selvagem da qual somos feitas.
É provável que não exista uma medida melhor e mais confiável para se saber
se uma mulher passou pelo  status de patinho feio em algum ponto da sua vida ou
durante toda ela do que sua incapacidade de aceitar um cumprimento sincero.
Embora essa atitude possa ser uma questão de modéstia  ou possa ser atribuída à
timidez  — apesar de muitíssimos ferimentos graves serem descartados
descuidadamente como "nada mais do que timidez"
14 — é muito mais comum que a
mulher evite o elogio, gaguejando, porque ele inicia um diálogo automático e
desagradável na mente da mulher.
Se você disser que ela é bonita, que sua arte é linda ou se a elogiar por alguma
coisa de que sua alma participou, que tenha sido inspirada por sua alma ou que esteja
dela impregnada, algo na sua cabeça lhe diz que ela não merece o  elogio e que você,
que a está elogiando, é idiota por ter uma opinião dessas a seu respeito. Em vez de
entender que a beleza da sua alma aparece refulgente quando ela é ela mesma, a
mulher muda de assunto e consegue assim roubar o sustento do self-alma, que se
nutre de ser reconhecido.
Portanto, essa é a função final da mulher exilada que encontra seu próprio
grupo: não só a de aceitar a própria individualidade, a própria identidade específica
como um determinado tipo de pessoa, mas também a de aceitar a própria beleza... a
forma da nossa própria alma e o fato de que viver junto dessa criatura selvagem
transforma a nós e a tudo que ela toca.
Quando aceitamos nossa própria beleza selvagem, ela fica em perspectiva, e
nós deixamos de ser incomodadas pela sua percepção, mas também não
renunciaríamos a ela nem negaríamos sua existência. Uma loba sabe a beleza que tem
ao saltar? Uma fêmea de felino sabe as belas formas que cria ao se sentar? Uma ave
se espanta com o som que ouve ao abrir as asas? Aprendendo com elas, simplesmente
agimos à nossa própria maneira e não evitamos nossa beleza natural nem nos
escondemos dela. Como os animais, simplesmente somos, e isso é bom.
Para as mulheres, essa procura e essa descoberta se baseiam na misteriosa
paixão que as mulheres têm pelo selvagem, pelo que lhes é inato. Estivemos
chamando o objeto desse anseio de Mulher Selvagem... mas, mesmo quando as
mulheres não a conhecem pelo nome, mesmo quando não sabem onde ela reside, elas
se esforçam para alcançá-la: elas a amam do fundo  do coração. Elas anseiam por ela,
e esse anseio é tanto motivação quanto locomoção. É esse desejo intenso que nos faz
procurar a Mulher Selvagem e encontrá-la. Não é tão difícil quanto se poderia

imaginar a princípio, pois a Mulher Selvagem também está procurando por nós. Nós
somos seus filhotes.

O zigoto errado
Com os anos da minha experiência clínica, ficou claro que essa queestão do
sentir-se integrado às vezes precisa ser considerada de uma perspectiva mais leve,
pois a leveza pode ajudar a eliminar parte da dor de uma mulher. Comecei, então, a
contar às minhas clientes essa história inventada chamada "O zigoto errado", com o
principal objetivo de ajudá-las a examinar sua qualidade de "diferente" com uma
imagem mais revitalizante. A história é como se segue.
Alguma vez você já se perguntou como conseguiu aparecer numa família tão
estranha quanto a sua? Se você passou a vida se sentindo estrangeiro, como uma
pessoa ligeiramente estranha ou diferente, se você é um ser solitário, que vive às
margens da corrente dominante, você sem dúvida sofreu. No entanto, chega também
a hora de remar para longe disso tudo, de experimentar um panorama diferente, de
migrar de volta à terra da sua própria gente.
Que não haja mais sofrimento, que não haja mais tentativas de descobrir em
que você errou. O mistério da razão pela qual você nasceu na família em que tenha
nascido acabou, finis, está encerrado. Descanse por um instante na proa,
refrescando-se no vento que vem da sua verdadeira terra natal.
Durante anos a fio, as mulheres que carregam em si a vida mística do
arquétipo da Mulher Selvagem queixaram-se em silêncio: "Por que sou tão diferente?
Por que nasci numa família tão estranha [ou insensível]?" Onde quer que suas vidas
pretendessem se expandir, havia sempre alguém a espalhar sal na terra para que
nada ali crescesse. Elas se sentiam torturadas por todas as proibições relativas aos
seus desejos naturais. Se eram filhas da natureza, eram mantidas entre quatro
paredes. Se eram cientistas, diziam-lhes que deviam ser mães. Se queriam ser mães,
diziam-lhes que, então, era melhor que se adaptassem perfeitamente ao papel. Se
queriam inventar algo, diziam-lhes que fossem práticas. Se tinham vontade de criar,
diziam-lhes que o serviço doméstico nunca termina.
Às vezes, elas tentavam se adequar a qualquer padrão que estivesse na moda,
sem perceber até bem mais tarde o que realmente queriam, como precisavam viver. E
então, a fim de ter uma vida própria, elas passavam pelas dolorosas amputações de
abandonar suas famílias, os casamentos que pelo juramento deveriam ser até a
morte, os empregos que deveriam ser trampolins para algo mais neutralizante
embora mais bem remunerado. Deixaram sonhos espalhados pela estrada inteira.
Com freqüência, as mulheres eram artistas que estavam tentando ser sensatas
ao dedicar oitenta por cento do seu tempo a algum trabalho que abortasse
diariamente suas vidas criativas. Embora as situações sejam inúmeras, um aspecto
permanece constante: desde muito cedo elas eram identificadas como "diferentes"
com uma  conotação negativa. Na realidade, eram pessoas apaixonadas, especiais,
curiosas e em pleno uso de suas mentes instintivas.
Portanto, é claro que a resposta a "por que comigo, por que essa família, por
que sou tão diferente", é que não há resposta para esse  tipo de pergunta. Mesmo
assim, o ego precisa ruminar alguma coisa antes de se soltar, e proponho três
respostas de qualquer maneira. (A analisanda pode escolher a que preferir, mas tem
de escolher pelo menos uma. A maioria opta pela última, mas qualquer uma serve.)
Prepare-se. Ei-las.
Nascemos do jeito que nascemos e nas estranhas famílias a que pertencemos l)
porque sim (quase ninguém acredita nessa), 2) o Self tem um planejamento, e nossos cérebros de ervilha são ínfimos demais para desvendá-lo (muitas consideram essa
idéia atraente) ou 3) por causa da síndrome do zigoto errado (bem... é, pode ser...
mas o que é isso afinal?).
Sua família a considera uma alienígena. Você tem penas, eles têm escamas.
Sua idéia de diversão é a floresta, os ermos, a vida interior, a majestade da natureza.
A idéia deles de diversão é dobrar toalhas direitinho. Se isso acontece com você na
sua família, você está sendo vítima da síndrome do zigoto errado.
Sua família passa lentamente pelo tempo; você passa como o vento. Eles são
barulhentos, você é delicada; ou eles são calados e você canta alto. Você sabe porque
sabe. Eles querem prova e uma dissertação de trezentas páginas. Sem a menor
dúvida, trata-se da síndrome do zigoto errado.
Nunca ouviu falar nisso? Bem, foi assim, a fada dos zigotos estava sobrevoando
sua cidade natal numa noite, e todos os zigotinhos na sua cesta pulavam e saltavam
de alegria.
Na verdade, você estava destinada a pais que a teriam compreendido, mas a
fada dos zigotos entrou numa zona de turbulência e, epa, você caiu da cesta na casa
errada. Você caiu de cabeça para baixo bem numa família que não lhe estava
destinada. Sua "verdadeira" família ficava uns cinco quilômetros mais adiante.
É por isso que você se apaixonou por uma família que não era a sua, e que
morava a uns cinco quilômetros dali. Você sempre quis que o sr. e sra. Fulano-de-Tal
fossem seus pais de verdade. É possível que eles fossem mesmo.
É por isso que você sapateia pelos corredores apesar de ter uma família que
vive grudada na televisão. É por isso que seus pais ficam alarmados cada vez que você
vem visitá-los ou telefona. Eles estão preocupados "com o que ela vai aprontar agora?
Da última vez, ela nos deixou envergonhados, só Deus sabe o que vai fazer desta vez.
Ai!" Eles cobrem os olhos quando você se aproxima, e não é por se ofuscarem com
sua luz.
Tudo o que você quer é amor. Tudo o que eles querem é paz.                                               
Os membros da sua família, por seus próprios motivos ; (em virtude das suas
preferências, da sua inocência, de danos sofridos, da sua constituição, da sua doença
mental ou ignorância cultivada), não são tão hábeis para serem espontâneos com o
inconsciente, e é claro que sua visita invoca o arquétipo do trickster, o que agita as
coisas. E assim, antes mesmo que vocês se sentem à mesa, ela já está dançando por
ali louca para deixar cair um fio de cabelo no ensopado da família.
Apesar de não ser sua intenção irritar a família, eles ficarão irritados do
mesmo jeito. Quando você aparece, tudo e todos parecem enlouquecer.
É um sinal inequívoco dos zigotos errados na família o fato de os pais se
sentirem ofendidos o tempo todo enquanto os filhos têm a impressão de que nunca
vão conseguir fazer nada certo.
A família não-selvagem tem apenas um desejo, mas o zigoto errado jamais
consegue vislumbrar qual seja ele e, se o conseguisse, seu cabelo se arrepiaria
formando pontos de exclamação.
Prepare-se, vou lhe contar o grande segredo. Eis a coisa misteriosa e tremenda
que eles realmente querem de você.
Os não-selvagens querem coerência.
Querem que você seja hoje exatamente a mesma que foi ontem. Querem que
você não mude com o passar dos dias, mas que permaneça como no início dos
tempos.
Pergunte à família se eles querem coerência, e eles darão uma resposta
afirmativa. Em tudo? Não, eles dirão, somente naquilo que importa. Quaisquer que
sejam as coisas que importam no sistema de valores deles, elas sempre serão inaceitáveis para a natureza selvagem das mulheres. Infelizmente, "aquilo que
importa" para eles não combina com "aquilo que importa" para a criança selvagem.
A coerência nas atitudes é uma expressão impossível para a Mulher Selvagem,
pois sua força está na sua capacidade de adaptação à mudança, na sua inovação, na
dança, nos uivos, nos rosnados, na sua vida instintiva profunda, na sua chama
criadora. Ela não revela coerência pela uniformidade mas, sim, pela vida criativa,
pela percepção, pela rápida captação de imagens, pela flexibilidade e destreza
coerentes.
Se tivéssemos de identificar um aspecto que faz da Mulher Selvagem o que ela
é, seria sua capacidade de resposta. A palavra resposta vem do termo latino
"prometer, garantir"  — e esse é o seu forte. Suas respostas cheias de percepção e
habilidade são uma promessa e garantia coerentes para com as forças criadoras,
sejam elas duendes, o diabrete que se esconde por trás da paixão, sejam elas a beleza,
a arte, a dança ou a vida. A promessa que ela nos faz, se não a contrariarmos, é que
ela nos fará viver. Ela nos fará viver plenamente, com sensibilidade e coerência.
Dessa forma, o zigoto errado dá sua fidelidade, não à família, mas ao seu Self
interior. É por isso que ela se sente dividida. Sua mãe loba está segurando seu rabo;
sua família concreta prendeu seus braços. Não demora muito, e ela está gritando de
dor, rosnando e mordendo a si mesma e aos outros, para afinal ficar numa calma
mortal. Quando se olha nos seus olhos, vêem-se ojos del cielo, olhos vazios, os de uma
pessoa que não está mais ali.
Embora a socialização para as crianças seja importante, matar a criatura
interior é matar a criança. Os habitantes da África Ocidental consideram que ser duro
com uma criança faz com que a alma se afaste do corpo, às vezes só alguns metros,
outras vezes a distância de alguns dias de caminhada.
Apesar de as necessidades da alma da criança deverem ser equilibradas com
sua necessidade de segurança e cuidados físicos, bem como com noções
cuidadosamente examinadas do "comportamento civilizado", sempre me preocupo
com aquelas que são bem-comportadas demais. Elas muitas  vezes têm aquela
expressão de "alma fraca" nos olhos. Alguma coisa não está certa. Uma alma saudável
aparece brilhante por trás da persona a maior parte dos dias, e nos outros arde como
chama. Quando o dano é sério, a alma foge.
Às vezes, ela sai vagueando ou correndo assustada e vai tão longe que são
necessários agrados magistrais para fazer com que volte. Muito tempo deverá se
passar antes que uma alma dessas sinta confiança suficiente para voltar, mas a tarefa
não é impossível. Um resgate desses exige alguns ingredientes: uma honestidade
aberta, energia, ternura, carinho, um exame da raiva e humor. Combinados, esses
elementos compõem uma canção que chama a alma de volta para casa.
Quais são as necessidades da alma? Elas residem nos dois reinos da natureza e
da criatividade. Nesses reinos, vive Na'ash-jé'ii Asdzáá, a Mulher-aranha, a deusa da
criação do povo  navajo que dá proteção psíquica a quem a procura. Ela se encarrega
de ensinar à alma tanto a proteção quanto o amor à beleza.
As necessidades da alma são encontradas no abrigo das três velhas (ou jovens,
dependendo do dia) irmãs  — Cloto, Láquesis e Atropos — que tecem o fio vermelho,
ou seja, a paixão, da vida da mulher. Elas tecem as idades da vida da mulher, dando
nós à medida que uma idade se completa  e a próxima se inicia. Elas se encontram nos
bosques dos espíritos das caçadoras, Diana e Ártemis, duas mulheres-lobas que
representam a capacidade de caçar, farejar e resgatar aspectos da psique.
As necessidades da alma são governadas por Coatlique, a deusa asteca da autosuficiência feminina, que dá à luz de cócoras, direto nos pés. Ela dá lições sobre a vida
da mulher solitária. Ela é uma fazedora de bebês, o que significa novos potenciais de vida, mas é também uma mãe da morte que usa caveiras na saia. Quando ela anda,
elas dão a impressão do chocalho de uma cascavel, pois são chocalhos de caveiras. E,
como os chocalhos de caveiras têm o som da chuva, por meios da ressonância
simpática, eles atraem a chuva para a terra. Ela é a protetora de todas as mulheres
solitárias e daquelas que são tão mágia, tão cheias de idéias e pensamentos
poderosos, que precisam viver no limiar do fim do mundo para não deslumbrar
demais a comunidade. Coatlique é a protetora especial da mulher exilada.                                
Qual é o alimento básico para a alma? Bem, ele difere dei uma criatura para
outra. Seguem-se, porém, algumas combinações. Considerem-nas uma macrobiótica
psíquica. Para algumas mulheres, o ar, a noite, o sol e as árvores são necessidades
vitais. Para outras, somente as palavras, o papel e os livros conseguem saciá-las. Para
ainda outras, a cor, a forma, a sombra e o barro são requisitos absolutos. Algumas
mulheres precisam saltar, inclinar-se, correr, pois suas almas amam a dança. Ainda
outras só querem a paz de se recostar numa árvore.
Há mais uma questão a tratar. Os zigotos errados aprendem a sobreviver. É
difícil passar anos a fio na companhia de quem não pode nos ajudar a florescer. Ser
capaz de dizer que sobrevivemos é um feito. Para muitas, o poder está na própria
palavra. No entanto, chega uma hora no processo de formação da identidade em que
a ameaça, ou o trauma, já faz parte do passado. É então que se passa ao próximo
estágio da sobrevivência, à cura e ao desenvolvimento futuro.
Se permanecermos no estágio de sobreviventes sem avançar para o
desenvolvimento, estaremos nos limitando, reduzindo nossa energia para nós
mesmas e nosso poder no mundo a menos da metade. Uma mulher pode sentir tanto
orgulho de ter sobrevivido que esse sentimento prejudique seu desenvolvimento
criativo futuro. Às vezes, as pessoas têm medo de prosseguir além do status de
sobrevivente, pois é exatamente isso o que ele é — um status, um marco de distinção,
uma realização "pura e simples, pode apostar, pode acreditar".
Em vez de tornar a sobrevivência a peça principal da nossa vida, é melhor usá-
la como uma entre muitas insígnias, mas não como a única. Os seres humanos
merecem andar cobertos de belas recordações, medalhas e condecorações por terem
vivido, vivido mesmo e saído vitoriosos. Uma vez passada a ameaça, existe uma
armadilha potencial se nos chamarmos por nomes adquiridos durante os tempos
mais terríveis das nossas vidas. Essa atitude cria uma disposição mental que pode ser
limitadora. Não é bom basear a identidade da alma exclusivamente nos feitos, nas
derrotas e nas vitórias dos tempos difíceis. Embora a sobrevivência possa deixar a
mulher dura como carne de pescoço, em algum ponto ela começa a inibir o
desenvolvimento futuro.
Quando a mulher insiste em repetir que é uma "sobrevivente", quando já se
passou o tempo em que isso seria útil, o trabalho adiante de nós é óbvio. Devemos
fazer com que a pessoa solte das mãos o arquétipo do sobrevivente. Se não o
fizermos, nada mais poderá crescer. Faço a comparação dessa  atitude com uma
pequena planta resistente que conseguiu  — sem água, sem sol, sem nutrientes  —
produzir uma corajosa e ínfima folhinha. Apesar das circunstâncias.
No entanto, vicejar significa que, agora que passou o tema pó das vacas
magras, vamos nos colocar em situações de exuberância, de luz e de nutrição para ali
prosperar, vicejar com flores e folhas densas, pesadas, emaranhadas. É melhor que
nos demos nomes que nos desafiem a crescer como criaturas livres. Isso é vicejar. É
isso o que nos foi destinado.
O ritual é um dos meios pelos quais os seres humanos colocam suas vidas em
perspectiva, quer se trate do Purim, do Advento, quer se trate de puxar a lua para
baixo. Os rituais reúnem as sombras e espectros das vidas das pessoas, como que os organizam e  os fazem repousar. Há uma imagem especial das comemorações de  El
Dia de los Muertos que se aplicam a ajudar as mulheres na transição da
sobrevivência para o desenvolvimento futuro. Baseia-se no rito das ofrendas, que são
altares para aqueles que passam desta vida.  Ofrendas são tributos, memoriais e
expressões da mais profunda consideração pelos entes amados não mais presentes
neste plano. Descobri ser útil para muitas mulheres o ato de fazer uma  ofrenda à
criança que elas um dia foram, à guisa de reconhecimento do heroísmo da criança.
Algumas mulheres escolhem objetos, escritos, roupas, brinquedos, recordações
de acontecimentos e outros símbolos da infância que serão incluídos. Elas arrumam a
ofrenda ao seu próprio modo, contam a história que acompanha ou não e depois
deixam aquilo arrumado enquanto quiserem. É a comprovação de seu passado de
dificuldades, de garra e de triunfo sobre a adversidade.
15
Essa maneira de olhar o passado surte alguns efeitos: ela proporciona
perspectiva, uma interpretação compassiva dos tempos passados, ao exibir aquilo que
a pessoa vivenciou, o que foi feito daquilo, o que é admirável. É o fato de admirar o
feito, em vez de vivê-lo, que libera a pessoa.
Continuar a ser a criança sobrevivente depois da hora para tal representa um
excesso de identificação com um arquétipo danificado. Perceber o dano, e mesmo
assim registrá-lo na memória, permite que se passe ao desenvolvimento futuro.
Vicejar é o nosso destino na terra. Vicejar, não apenas sobreviver, é o nosso direito
inato na qualidade de mulheres.
Não se encolha nem recue se for chamada de ovelha negra, de indisciplinada,
de loba solitária. Quem tem a visão lenta diz que o rebelde é uma praga para a
sociedade. No entanto, ficou provado com o passar dos séculos que ser diferente
significa estar no limite, significa ser praticamente garantido que essa pessoa vá fazer
uma contribuição original, uma contribuição útil e espantosa à sua cultura.
16
Ao procurar conselhos, jamais dê ouvidos aos tímidos de coração. Seja gentil
com eles, cumule-os de bênçãos, tente incentivá-los, mas nunca siga seus conselhos.
Se você alguma vez foi chamada de desafiadora, incorrigível, saliente, esperta,
insubmissa, indisciplinada, rebelde, você está no caminho certo. A Mulher Selvagem
está por perto.
Se você nunca foi chamada de nada disso, ainda é tempo. Ponha em prática
sua Mulher Selvagem. Ándele! Insista

Essa é a minha história. E cheguei a me arrepiar em trechos desse texto. Não pude deixar de colocar no blog

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